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A transformação digital pode promover ganhos imensos no combate à desigualdade ou impor à humanidade abismos ainda maiores do que os atuais

Por Rodrigo Assumpção*
Presidente da Dataprev

O combate às desigualdades está no centro da pauta do G20 sob a Presidência brasileira, cujas reuniões encontram-se já em andamento. Vencer essa luta, tão difícil quanto antiga, é impossível sem a tecnologia. Mas essa mesma tecnologia também ameaça agravar os abismos existentes, sejam de classe, raça, gênero e geográficos. “O que será o amanhã”, como pergunta o samba, depende de decisões, diretrizes regulatórias e escolhas políticas que serão debatidas, inclusive, nos encontros dos líderes de algumas das maiores economias do mundo, que ocorrem no Brasil até novembro.

Nas discussões tecnológicas, a Inteligência Artificial desponta como uma “tecnologia de uso geral”, significando seu potencial de mudança para a organização econômica e social e os comportamentos humanos. Foi assim com a máquina a vapor, a eletricidade, a internet e o celular.

Este é um dos exemplos visíveis para podermos afirmar que a tecnologia é chave para as prioridades estabelecidas pelo governo brasileiro para o G20: o combate à fome, pobreza e desigualdade; o desenvolvimento sustentável (nas dimensões econômica, social e ambiental); e a reforma da governança global. Por isso, é desejável que esses temas sejam debatidos em todas as mesas: da Trilha dos Sherpas, composta por 15 grupos de trabalho, duas forças-tarefa e uma Iniciativa, à Trilha de Finanças, com ministros da Fazenda e presidentes de Bancos Centrais dos países membros.

    Os temas do GT de Economia Digital envolvem fundamentos para uma transformação efetiva: inclusão digital e conectividade significativa e universal; governo digital: construindo uma Infraestrutura Pública Digital (IPD) confiável e inclusiva; integridade da informação “online” e confiança na economia digital; Inteligência Artificial para o desenvolvimento sustentável e redução das desigualdades. Essas são demandas estruturantes que precisam transbordar desse GT para os demais.

Nas últimas décadas, o caráter inclusivo da transformação digital trouxe também uma alta concentração de riqueza. O valor de mercado combinado das chamadas Big Techs superam mais de US$ 10 trilhões. A América Latina participa com menos de 1% do valor das 70 maiores plataformas digitais no mundo. Isto serve como um alerta para a região e revela o crescente papel periférico da capacidade de inovação e sustentação de desenvolvimento na fronteira tecnológica.

As novas tecnologias não têm produzido sociedades necessariamente mais igualitárias. Pior: as redes sociais servem hoje de ninho para muito ovo de serpente. E persistem desigualdades do chamado primeiro nível – que separa quem tem ou não acesso à internet –, acrescidas das exclusões de segundo e terceiro níveis de desigualdade digital.

No primeiro nível estão 2,6 bilhões de pessoas, um terço da população mundial, sem nenhum acesso ao ambiente digital e à internet, segundo dados de 2022 da União Internacional de Telecomunicações (UIT). No Brasil, de acordo com a TIC Domicílios 2023, do Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), 29,5 milhões de pessoas não têm acesso à internet, equivalente a 16% da população. Temos um total de 156 milhões com conexão, que aparece em 67% dos domicílios das classes D e E, e em 98% nas classes A e B.

Mesmo entre os conectados, nem todos têm a mesma qualidade de internet. O segundo nível de exclusão são as barreiras para contratação da banda larga e de dados móveis nos países em desenvolvimento, em função de custo, contexto rural ou urbano, gênero e raça. Aqui estão, por exemplo, as comunidades periféricas com acesso ruim, instável, limitado por planos precarizados ou falta de infraestrutura de rede.

A desigualdade de terceiro nível se refere ao quanto a pessoa consegue usar a conexão em seu benefício, para melhoria da sua inserção social e das suas condições de vida. Nos países menos desenvolvidos, ela se sobrepõe a outras exclusões preexistentes: de urbanização, acesso à educação, saúde, rede sanitária.

Outra questão é o desequilíbrio cultural e o domínio avassalador do conteúdo em inglês na internet, para uma população mundial que, na sua maioria, não fala esse idioma. Há uma desproporção imensa entre conteúdo, acessos, valores culturais da rede e a disponibilidade de conhecimento nos idiomas que as pessoas precisam usar.

Neste momento de tantas transições, é uma oportunidade importante o Brasil presidir a reunião das 19 maiores economias do mundo mais a União Europeia e a União Africana, para discutirem o futuro. Uma chance de tentarmos visualizar, entre outros cenários, o que queremos com as redes e suas fronteiras lógicas, com a Inteligência Artificial e o aumento extraordinário do poder computacional das nuvens, combinado às plataformas e às gigantescas bases de dados, capazes de mapear bilhões de informações e possibilitar a tomada de decisões críticas em segundos.

    Os maiores desafios da atualidade estão imbricados: mudanças climáticas e IA andarão juntas, com repercussões imensas sobre os níveis de desigualdade global. Cálculos impossíveis há alguns anos poderão ajudar a combater a fome, revolucionar a biotecnologia e gerar avanços na área da saúde para atacar doenças antes invencíveis, ou por outro lado, potencializar recursos energéticos a tempo de nos salvar do aquecimento fatal. Análises melhor estruturadas, de maiores volumes de dados, que serão cada vez mais qualificados, poderão revelar caminhos para enfrentar a pobreza, a miséria e a vida sem dignidade.

Junto a essas possibilidades, o cenário disruptivo da TI também abre nova disputa civilizatória. Estamos suspensos em uma espécie de transe global, com guerras, esgotamento de modelos e retrocessos que convivem com o anúncio de possibilidades novas de dimensões extraordinárias. É urgente ampliar a participação e o debate para que cada vez mais pessoas e sociedades entendam a natureza, a relevância e as implicações das disputas tecnológicas. Essa parece ser a chave para virar o jogo a favor da justiça social.
 
*Bacharel em História, mestre em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo (USP), especialista em sistemas de informação para gestão da proteção social, e presidente da Dataprev, empresa pública de tecnologia responsável pela execução das principais políticas sociais do Brasil.